O Centro de São Paulo me fascina. Um local em constante luta contra sua própria decadência. Que de alguma maneira tenta sempre renovar-se. Com seus tipos próprios. Seus segredos. Suas características que talvez não sejam encontradas em nenhum outro lugar. Este é um espaço para falar de minha vivência no centro de São Paulo. De seus personagens. De seus locais. De sua vida. Das nossas vidas.
São Paulo em Imagens
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Chuva
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Amigo Secreto
Olhou novamente o pequeno pedaço de papel, mas o nome não mudou. Ana. Não sabia bem o que pensar. Aliás, pouco sabia sobre ela. Tentou repassar os fatos que conhecia.
Ana havia chegado na agência fazia coisa de três meses. Vinha do norte do país, após separar-se do marido. Reservada, pouco falava de sua vida pessoal, e nunca saia com o pessoal para as comemorações de aniversário e happy hours que algum colega eventualmente inventava. Sua pele morena, com os traços visivelmente declarando sua origem indígena chamavam a atenção, bem como sua voz rouca, com um sotaque diferente, e bastante carregado. Isto era tudo que Luis Cláudio sabia sobre ela. Nada que ajudasse a escolher-lhe um bom presente…
Além disto, havia uma outra questão: o mais gostoso do amigo secreto é a brincadeira, a troca de bilhetes antes do dia de trocar o presente. Nada mais sem-graça e fora do espírito que aquelas pessoas que simplesmente ficam quietas e, no último dia, trazem apenas um pacote, que entregam ao seu sorteado e fim. E não era, definitivamente, o que ele queria…
A abordagem escolhida foi um tanto ousada, talvez. Mas Luis Cláudio nunca foi exatamente um tímido, então não veria problemas em sustentar, na revelação, a brincadeira que estava iniciando…
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Respondeu ao galanteio mais ou menos no mesmo tom, divertindo-se em fazê-lo. E passou a aguardar ansiosa o que mais viria…
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A partir do próprio estilo do texto dos bilhetes, os galanteios e brincadeiras foram tornando-se dia a dia mais ousados. “Espada” e “mosquete” proporcionaram duplos sentidos que não foram tão rejeitados assim, contribuindo para aumentar, ainda que cuidadosamente, a ousadia de seu autor.
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O sorteado por Ana não acertou seu nome e, após o pagamento do castigo, ela avançou e entregou-lhe o presente. Era agora…
Passou os olhos pelos presentes. Mais da metade já havia sido revelada, o que poderia facilitar as coisas. Havia mais homens que mulheres na brincadeira, então ela poderia eliminar todas as mulheres que faltavam. Os homens que faltavam eram, como ela temia, todos casados, exceto…
Ao final da noite, Luis Cláudio acompanhou-a até o carro dela. Despediram-se, ainda um beijo no rosto, mas um abraço um pouco mais demorado.
E a certeza de que o melhor presente de amigo secreto que ambos haviam ganho não era o objeto em suas mãos…
Rotina
Paralelas
Levantou-se, sabendo que estar na cama não a ajudaria em nada. Ao contrário, o melhor a fazer seria ajudar sua mãe com os afazeres para aquele dia, concluindo logo suas tarefas, antes do horário combinado com a amiga. Era o dia do aniversário da cidade, havia uma extensa programação comemorativa, e as duas haviam combinado há dias que iriam participar.
“Vai ser bom”, ela tentava convencer-se, “ao menos vai ser tanta coisa a fazer que nem vou me lembrar do Renato”.
A amiga chega por volta das 11horas. Saem imediatamente, uma longa viagem de ônibus até o centro da cidade. E, com o feriado, é muita sorte se o ônibus demorar menos de uma hora a passar...
Ele acordou tarde. Havia acordado antes, olhou o dia nublado pela janela e voltou a dormir. Era feriado, não precisava acordar cedo, afinal de contas. Pretendia participar da programação de aniversário da cidade, mas não tinha pressa alguma.
Levantou-se por volta do meio-dia. Toma um banho sem pressa e sai caminhando, em direção ao evento mais próximo.
Ela esperava um show melhor. Para tentar animar-se, divide com a amiga uma garrafa de vinho barato, comprado do ambulante a um preço que, definitivamente, não valia.
O show está animado, mas ele não compreende a razão de ter sido contratada uma banda de fora da cidade, com tantas bandas locais disponíveis.
Enquanto ele ouve as músicas, passeia pelo local. Apesar de tantos anos vivendo na cidade, esta é a primeira vez que consegue ir a um evento deste tipo.
Enquanto ouve as músicas, ela e a amiga dançam, pulam e bebem. Tudo é válido, para esquecer a dor que sente.
Terminado o show, ele dirige-se a um pequeno restaurante próximo, para uma refeição simples, mas que seja diferente de sua comida de todos os dias. Ela busca uma das muitas barracas que há no local, vendendo cachorros-quentes e outros lanches, para comer algo.
Depois da refeição, percebendo a chuva que se aproxima, ele volta para casa, sem pressa em assistir o show que vai começar no final da tarde. Ela e a amiga tentam o abrigo de uma marquise, mas a quantidade de pessoas que teve a mesma ideia não lhes permite grande sucesso.
As duas dividem mais uma garrafa de vinho para se esquentarem. E depois outra, para se alegrarem, ou comemorarem, ou esquecerem, o motivo já não mais importa. Enquanto elas bebem, ele dorme.
Começa o show, e dançando, em meio à aglomeração popular, elas nem se lembram mais do tanto que se molharam. E, em breve, as próprias roupas já estão bastante secas.
Por alguns instantes, ele questiona-se a respeito de sair novamente de casa. Acaba se convencendo de que ir é melhor que suportar o opressor sentimento de solidão que preenche todo o local.
Ela e a amiga afastam-se um pouco do palco principal e da agitação que o cerca, optando por acompanharem o show pelo telão. A imagem é ruim, mas não faz muita diferença, pois o que menos interessa é ver o que acontece no palco. O momento é para beber, dançar e esquecer.
Ele, ao contrário, prefere aproximar-se do palco, encantado pela novidade. Tantos anos, tantos shows que já perdera, constata agora um ambiente muito mais tranquilo do que sempre ouvira falar.
Não falta muito tempo para o final previsto do show, ele decide afastar-se do palco, de modo a ter menos problemas quando for para sair.
É neste momento que as paralelas se encontram.
Basta uma breve fração de segundo. Ela dança, ele caminha. Os olhos dos dois se conectam. No palco, a música que se transformou no hino extraoficial da cidade. Não é preciso usar palavras. Ele estende a mão, ela a segura. Ele a puxa para si. Abraçados, dançam, esquecendo-se de tudo e de todos. Trocam algumas palavras, ele pergunta o nome dela. “DÉni”, ela responde, forçando um falso sotaque inglês. Não pergunta o nome dele, nem ele diz.
A música termina, e também a dança. Um breve beijo no rosto, “obrigado por estes momentos”.
E as paralelas voltam a se desencontrar.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Cenas inusitadas
No centro de São Paulo, não é incomum vermos cenas inusitadas como as que estão registradas nas fotos abaixo.
Esta primeira foi feita no dia 12 de fevereiro. O dia estava bastante quente, insuportável mesmo. Percebendo que o vento que saia pela grade de ventilação do metrô era fresco e agradável, o morador de rua improvisou a sua própria versão de ar-condicionado:
Esta segunda, já foi feita hoje. Apesar de inusitada, esta já é uma cena intencional, o "banhista" estava sendo filmado e dirigido. A equipe de produção era formada por de cerca de dez pessoas, entre ele, diretor, cameramen e pessoal de apoio:
De qualquer maneira, são situações que não são usuais de serem encontradas na maioria das cidades. Mas que acontecem em São Paulo.